Muito se fala do destino da emigração dos portugueses de preferência, muito se eleva os padrões económicos deste destino, muito se leva ao engano os portugueses.
Os nossos políticos estão a enganar despudoradamente aqueles que mais necessitam e que têm como ultimo recurso a emigração. Ultimo e por vezes mesmo, o único.
O engano começa logo no país de origem, quando por força dos elevados índices de desemprego, os empresários e administradores das empresas quase que forçam o aceitar das condições que impõem, por vezes ultrajantes. Os salários praticados quase que não justificam o sofrimento do afastamento e a ausência da família. Mas a espada está sobre a cabeça e prestes a cair e a opção só uma, aceitar.
Depois vêm as condições de alojamento, armazenados nos estaleiros, muitas vezes em contentores adaptados a dormitórios, precariamente ou nem tanto, mas sempre em estado de reclusão, durante a semana detidos, para gozar uma precária saída durante o Domingo, sim porque por estas bandas o sábado é dia útil. Quando no país de origem a legislação obriga a cumprir 40 horas de trabalho semanal, por estas bandas são 45 ou mais horas semanais, sem que para isso haja a devida compensação.
As condições de deslocação contemplam normalmente a alimentação, em diferentes formas, sendo o comummente utilizado o refeitório compartilhado por todos, onde a confecção e as condições adjacentes quer de variedade quer de qualidade dos bens alimentares faz lembrar os restaurantes indianos nas zonas pobres de Bombaim.
As empresas gerem e manipulam a seu bel prazer os custos e fixam os objectivos da rentabilidade da sua exploração na diminuição de despesas e controle de custos.
A alternativa será ficar a trabalhar e receber um salário miserável que não paga uma prestação da amortização do crédito de aquisição da habitação, então as opções não são muitas.
Como sempre os investimentos são para serem suportados pelo Estado, tal como na origem da nossa nacionalidade, as grandes empresas querem e só pensam viver na sombra das Obras garantidas pelo Estado.
Mas o “El Dorado” tem outra designação “Obras Públicas”, ou satirizando “a teta do Estado”. Isto quando o Estado aceita pagar, quando e como quiser, pois quando tal não acontece cria e acrescenta mais dificuldades naquele rectângulo perdido no cantinho da Europa, eis senão as altas instâncias da Nação a caminhar amiúde e apressadamente para efectuar estas cobranças difíceis, suportadas em primeira instância pelo Governo nacional.
As condições de trabalho são muito abaixo dos níveis mínimos de segurança exigidos pelo País de origem.
Depois a insegurança reinante e a criminalidade crescente, associado a uma população nativa sem rendimentos, criam as situações ideais vitimizar os expatriados, sem direitos legais reconhecidos e não bastas vezes também ilegais.
A criminalidade é deveras violenta, num canto do Mundo onde a vida humana tem baixo valor, quer moral, quer económico. Dos assaltos diários e constantes aos dois portugueses mortos num bairro pobre dos arredores da capital, na zona dos Estaleiros das empresas de construção, mas ninguém alerta para os perigos que enfrentam durante o dia e que se agravam durante a noite. Aqui nada do que parece o é.
Acresce a tudo isto, a falta de mão de obra para ser explorada , com características de subserviência, disciplina e de dedicação ao trabalho, tão do agrado dos nossos empresários. O absentismo laboral é soberano por estas terras, não importa quais os níveis de instrução ou cargos desempenhados.
A possibilidade de trabalhar legalmente é dificultada por legislação ambígua, sujeita a alterações constantes e proporcionadora de rendimentos elevados por via da influência exercida, quer pelo cargo ocupado ou por via do conhecimento directo ou indirecto, são mais um obstáculo para esses novos emigrantes, que se vêm num país distante e que os trata como minorias raciais e traficantes das riquezas naturais existentes por aqui. São ainda os representantes dos colonos, culpados por tudo o que de mau existe por estes lados. Depois de 35 anos de independência ainda não estão a conseguir libertar-se das grilhetas do colonialismo português, ou talvez não interesse…
Mas agora olham para este país como se fosse o “El Dorado” como salvação de todas as crises que atravessamos, mas deixaram passar por debaixo do nariz a criação de condições para que o nosso país e a Comunidade Europeia se tivessem colocado em posição dominante ao invés da China. Quer os banqueiros que agora correm para estes lados, quer os empresários e também a classe política na sua generalidade, não tiveram a destreza nem a coragem de assumir a liderança do apoio a um país a apelar desesperadamente por ajuda.
Valeu que um país sem tradições coloniais mas com uma vontade extrema de se tornar uma potência colonial, associada a um capital disponível em excesso , ofereceu a troco de um verdadeiro “negócio da china” e ocupou por estas bandas e arredores um papel de parceiro importante e vital.
E ficou o puxão de orelhas para todo o mundo!
E agora chegam aos magotes e a pedir a todos os santinhos do altar, o perdão pela sua grande falta de destreza e de uma visão limitada no horizonte.
E colocamo-nos ainda mais a jeito ao mendigar um acesso que podia ter sido adquirido de forma transparente, salvaguardando interesses e mantendo uma posição de igualdade, estreitando as relações institucionais entre os povos, que quer queiramos quer não estamos ligados pela língua, cultura e a vida em comum ao longo dos tempos.
Subsequentemente somos servidos com os restos do festim onde os outros se banquetearam e para sobreviver, os nossos dirigentes e empresários continuam a esmiuçar os pobres e desprotegidos trabalhadores, aliás coisa a que estamos habituados (a ser “esfolados” pelos governantes e políticos!).
Mas o “El Dorado” foi chão que deu uvas, pois chegámos tarde, mais uma vez!
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