terça-feira, 13 de abril de 2010

A LIBERDADE, Abril de 1974

A Liberdade
Em 1974, eu e muitos outros como eu, jogávamos à bola, entre outras brincadeiras das nossas infâncias, nas ruas, com outros iguais, numa convivência sã, onde eram cultivadas as amizades que duravam uma vida, que enriqueciam a vida preenchendo-a de contacto humano, vivo e real, que ensinava o sentido de lealdade e amizade, a viver em sociedade, em contacto com os outros como eu.
Relembro muitas das realidades da minha juventude, a honestidade com que se tratavam dos assuntos interpessoais, ou mesmo comerciais, o respeito e compromisso pela honra da palavra dada, a moralidade e o respeito pelos demais. Havia excepções claro, que a própria sociedade se encarregava de penalizar, de criticar e condenar.
Os tempos de escolaridade, em principio premonitório do que é actualmente, provocado pelas sucessivas alterações das regras sociais e estatutárias de uma sociedade em mudança, embora conturbados foram cumpridos com empenho e dedicação por aqueles que tinham objectivos para o futuro.
Em 36 anos de Liberdade, onde se podia e devia esperar mais e maior respeito pelas pessoas, campeiam os atropelos com cobertura institucional a tudo e todos, a transformação descarada do património público em particular, o desrespeito pelas liberdades que todos temos direito.
Em 36 anos de Liberdade, era expectável ser-se reconhecido pelas qualidades humanas, pela honestidade, o assumir da palavra e o compromisso que a mesma acarreta. Ser-se responsável, respeitador do bem comum e das regras que a própria sociedade impõe. Vaidoso de se ser cidadão cumpridor, para o seu semelhante e o seu País. Exibir o orgulho de ser Português.
Em 36 anos de Liberdade, os nossos filhos, deveriam poder estar agora, a brincar entre si nas ruas e pracetas, jardins ou praças das nossas cidades, vilas e lugarejos sem estarmos preocupados com bandos de malfeitores, de delinquentes de toda a espécie, que dominam esses locais, protegidos por todo um conjunto de leis que os deixam impunes perante a sociedade.
Em 36 anos de Liberdade, os nossos altos dignitários da nação, a grande maioria jovens entusiastas de tudo de novo que chegou em Abril de 1974, desenvolveram-se, modificaram-se, tal como o nosso amado País, criando e manipulando as Leis e a Sociedade Civil a seu bel prazer, sem respeitar a mais elementar regra da Democracia, a Liberdade do semelhante.
Em 36 anos de Liberdade, os nossos filhos deviam ir para a escola aprender, a criar amigos, a respeitar e a serem respeitados, a sentir a responsabilidade de viver em colectivo, fora do ambiente familiar protector, no meio daqueles que irão ser os protagonistas da sociedade num futuro próximo. Deviam estar nas escolas seguros, proporcionando aos pais condições para crescer o seu nível de vida, de enriquecer legitimamente o seu património, desenvolver o País, tudo pela força do seu trabalho, honesto e competente.
Em 36 anos de Liberdade, os nossos tribunais devem estar a condenar todos os atentados ao Estado, à Liberdade. Condenar severamente os crimes contra o património, contra a vida e outras as acções violentas sobre outros seres. A condenar a falta de respeito para com os símbolos nacionais, de soberania e segurança.
Em 36 anos de Liberdade, devíamos ter disponíveis hospitais e centros médicos que nos assegurassem os serviços necessários, com corpo clínico competente, sem necessidade de recorrer aos países vizinhos para os elementares serviços de saúde e de tratamentos médicos. Devíamos poder viver sem a preocupação do que nos vai acontecer na parte final das nossas vidas, porque o Estado, como pessoa de bem, cuidaria de nós, proporcionava a recompensa do trabalho de uma vida.
Em 36 anos de Liberdade, o país deveria estar homogeneamente ocupado, com meios agrícolas e industriais, proporcionando desenvolvimento e ocupação territorial, promovendo a melhoria da vida no interior, bem como a fixação dos jovens. O desenvolvimento regional, a criação concertada e assertiva de pólos de desenvolvimento em zonas mais desfavorecidas, a justa repartição da riqueza nacional, deveriam criar oportunidades de emprego, não separando os Portugueses, os que moram no Litoral e os outros…
Em 36 anos de Liberdade, as habitações seriam condignas para todos, todos sem excepção, com condições de salubridade e de higiene. Sem injustiças nem distinções entre os que pagam e os que beneficiam. E todos com direito à diferença, assim tenham a possibilidade de pagar.
Em 36 anos de Liberdade, nós merecíamos estar a viver melhor, com justiça nos preços de consumo essenciais, sem especulações, com salários adequados ao nosso modo de vida, sem luxos nem excessos, linear, sem sobressaltos de maior.
Em 36 anos de Liberdade, não devíamos estar desprotegidos perante as acções unilaterais e terroristas das grandes empresas de serviços públicos, bancos e seguradoras, tirando aos desprotegidos para encher os bolsos de uma classe de dirigentes subservientes ao poder político, auferindo desavergonhadamente vencimentos e benefícios atentatórios à moralidade dos comuns Portugueses, que suportam sem gritar, a dor e a infâmia pela violação da mais elementar regra da Sociedade, o Respeito.
Em 36 anos de Liberdade. Mas qual liberdade? A de ficarmos fechados em casa com os receios justificados da crescente delinquência que grassa pela nossa sociedade, bem como um pouco pelas demais sociedades ocidentais? A de convivermos com os amigos e familiares por via das salas de chat ou redes sociais virtuais? A de vivermos enclausurados numa sociedade que não respeita as legitimas aspirações às liberdades para viver do seu semelhante? A de não podermos viver no nosso País, sem estarmos sob o apetite voraz de uma máquina fiscal, tirana e opressiva? A de circularmos pelo interior de um país deserto e abandonado? Sem podermos exibir orgulhosamente a nossa Nacionalidade, por estarmos sujeitos a rotulagem depreciativa, adjectivos que nos deixam corados de vergonha, (para aqueles que a têm)? Ou a de vivermos numa sociedade que nos oprime por meio de acções legislativas e penais, que nos suga a vida por meio das muitas dificuldades em que temos de viver. Ou a mesma sociedade elitista e restrita que exibe descarada e orgulhosamente o nosso sangue, suor e lágrimas, que desperdiça a riqueza do trabalho nacional, que consome o nosso esforço para o engrandecimento da nossa pequena grande Nação?
Esta mesma sociedade elitista, auto-proclamada dirigente dos desígnios da Nação, despudorada e corrupta, que perdeu todos os grandes valores morais e humanos que desde sempre nortearam um povo cumpridor e respeitador.
Esta mesma classe de dirigentes, que nas décadas de 1960 brincava nas ruas como eu, e que ainda continua nas ruas… marginalmente, agora com a cobertura e complacência da Justiça, que deveria ser cega e ponderada, para todos, sem excepção, tal como é assegurado pela Constituição da República, carta magna de toda a Sociedade nacional.
Em 36 anos de Liberdade, meia vida desperdiçada…

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