segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Grande Dragão

O Governo Português está a preparar-se para efectivar um acordo económico com a Republica Popular da China.
O desespero económico e o descalabro das contas públicas estão a levar-nos a situações que num futuro muito próximo deverão estar fora de controle ou muito perto disso. De facto, sendo a R.P. China uma potência económica, com disponibilidades financeiras acima do imaginável é por si só um atraente parceiro económico. Mas só se for mesmo para ser um parceiro económico.
O que tem acontecido por todos os países onde o Governo Chinês ou o Banco da China têm investido ou financiado a dívida pública foi uma subjugação económica e uma dependência dos factores de produção chineses, sem nunca servirem para um desenvolvimento regional.
Os modos de amortização das dívidas são os mais diversos, desde que sejam negociáveis, sejam elas quais forem, desde petróleo a areia, pedras ou mesmo solos aráveis. Mas sempre com elevadas taxas de influência sobre as politicas económicas e governativas nacionais.
Como o Governo, o partido que o suporta e também o principal partido da oposição estão de acordo, poderemos partir dum principio que se trata de algo de interesse relevante para a Nação.
Mas verifiquemos o que se passou no nosso comércio local com a proliferação de lojas de artigos chineses, importados da China, fabricados na China, com mão de obra chinesa e com alguma da matéria prima necessária à produção adquirida a países endividados e dependentes dos fundos monetários chineses, com o aproveitar das legislações nacionais existentes bem como os apoios institucionais existentes. Que influência tiveram nas populações locais onde se estabeleceram estes núcleos comerciais?
E para onde são transferidos quase de imediato os ganhos e proveitos conseguidos?
Debrucemo-nos com a influência e a profusão de artigos chineses no comércio nacional, com a “elevada” qualidade apresentada e pelo “estrito cumprimento” das normas comunitárias. Muitos dos artigos dispõe da sigla “CE” mas não cumprem as regras mínimas regulamentadas para usufruírem dessa mesma sigla.
Veja-se qual a origem da grande maioria de artigos contrafeitos, das marcas multinacionais, desde plásticos, vestuários até aos automóveis. Tudo com a conivência dos grandes dirigentes empresariais que só olham ao lucro e se colocam à margem dos deveres e responsabilidades nacionalistas. Não interessa saber que vão ficar desempregados 5 ou 15.000 portugueses, desde que se consiga produzir na China e o produto final fique parecido com o original e desde que isso faça aumentar os respectivos lucros.
Quando o desenvolvimento da civilização ocidental está assente no consumo interno e produção industrial, sendo necessário para tal fabricar e colocar no mercado produtos aos mais baixos preços para sustentar as nossas necessidades, necessidades essas fomentadas por poderosas agências de marketing e publicidade, estando por sua vez ao serviço das grandes multinacionais que gerem e moldam as nossas necessidades correntes, quando tal desenvolvimento assenta em alta produção e baixos salários, alguma coisa vai mal no sistema politico, económico e empresarial. Por um lado as nossas sociedades exigem a atribuição de salários mínimos, horas laborais e de descanso, férias e subsídios diversos, por outro leva as unidades mais produtivas e rentáveis para locais onde isso não existe, onde mais de metade da população vive no limiar da pobreza extrema, onde as condições de vida são degradantes em qualquer país democrático e situado a ocidente do Grande Dragão.
Basta olhar para um mapa mundo e verificar quais os locais onde se produzem e fabricam os produtos dos nossos consumos internos, os supérfluos, os tecnológicos e os de conforto. Verifiquemos depois quais as condições e legislações laborais vigentes nesses países.
Espero que o acordo económico, com a compra da divida soberana não tenha sido conseguido por meio de uma hipoteca da nossa influência nos Países de Língua Oficial Portuguesa. O que não seria descabido desde já, uma vez que o Grande Dragão está a fomentar o ensino da língua portuguesa em larga escala, que evidencia desde logo um interesse reforçado nos PALOPs, um mercado de muitos milhões de alminhas, abrangendo todo o Mundo.
Se um tal acordo viesse a ser efectuado sobre estas premissas, todos os envolvidos, mas mesmo todos, desde os que se pronunciaram favor até aqueles que se abstiveram de emitir opinião, deverão ser responsabilizados pelas suas acções enquanto dirigentes e intervenientes, quer sejam activos ou passivos, porquanto não actuaram em defesa dos legítimos interesses nacionais quer por palavras ou acções politicas, preferindo o anonimato da abstenção e sacudindo as responsabilidades inerentes aos estatutos políticos que usufruem.
O acolhimento de investimento oriundo da R.P. da China, não irá certamente servir para diminuir os índices de desemprego nacional, mas para dar continuidade a uma politica de expansão comercial e industrial, para num futuro próximo dominar e controlar a produção mundial. No nosso caso particular, pergunto se acham que um empresário chinês, com unidades fabris no seu país, onde se pagam salários médios inferiores a 100€ mês, onde não existem direitos laborais adquiridos, onde os turnos de trabalho são rotativos de oito ou mais horas, com a obrigatoriedade de dormir nos locais de produção, sem direito a férias ou a quaisquer subsídios extras, virá investir numa fábrica neste rectângulo perdido num canto da Europa, onde as nossas leis e regras laborais são penalizantes segundo a visão empresarial, só porque estamos endividados? Num país onde as disposições legais são contrárias, na grande maioria das vezes, aos interesses empresariais?
Acham que os empresários chineses vão desperdiçar a hipótese de aceder e controlar unidades fabris tecnologicamente evoluídas, com técnicas de produção que dominamos quase na perfeição e onde efectivamente dispomos de competência internacional reconhecida?
Acham mesmo que os dirigentes políticos e empresários chineses vão desperdiçar a esta oportunidade de arranjar uma Angola na Europa?
Alguém acredita que os dirigentes políticos chineses têm assim tão boa vontade para fazer algo de bom por nós, Portugueses?
E alguém acredita nas palavras dos nossos Dirigentes Políticos sobre este assunto?
O Governo português que se acautele e não estoire desde já com todo o nosso possível futuro, com acordos desesperados e imediatistas.
Quanto a mim, prefiro voltar a ser o mais pobrezinho da Europa a ser obrigado a aprender mandarim.